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CicloMutações

Anotações sobre as palestras do ciclo Mutações: Novas Configurações do Mundo (Cultura e Pensamento em Tempos de Incerteza, Belo Horizonte, Casa Fiat de Cultura, promoção MinC, agosto a outubro de 2007).

Há um caderno de resumos e, por isso, minhas anotações serão pontuais.

Heterodoxa mutação: José Miguel Wisnik, 21 ago. 2007

Apresentou dois pensadores heterodoxos, por julgar a heterodoxia pertinente no atual momento de busca por uma cultura à altura dos acontecimentos desencadeados pela tecno-ciência. São eles MDMagno e Luiz Sérgio Coelho de Sampaio.

O primeiro propõe uma Nova Psicanálise através da reinterpretação da pulsão de morte. A origem de tudo seria o desejo de voltar ao nada, isto é, “Desejo de não haver, mas não haver não há”, num “revirão” fractal de recalques do não haver:

A partir disso, elabora uma tipologia (impérios ou cronologia, talvez):

  1. mãe: matter: matéria: relação animista;
  2. pai: monoteísmo: passagem do recalque primário ao secundário;
  3. filho: puramente recalque secundário;
  4. espírito: nenhum dos anteriores: nada: retorno:
    1. contínuo desejo do absoluto: origem da loucura da espécie: a-religião;
    2. nova cultura ou regressão catastrófica;
  5. amém: admissão.

Não sei até que ponto essa Nova Psicanálise não é a elaboração de uma nova mitologia… algo zen budista… enfiada na psicanálise…

O segundo propõe que toda cultura tem uma chave lógica muito simples, baseada em dois fatores: identidade e diferença. Novamente parece haver uma criação de cronologia: politeísmo [d], monoteísmo [i], cristianismo e indivíduo [i/d] e ciência moderna [d/d – dupla diferença]. Tal seria, então, a lógica dominante atual: aceleração de d/d gerando mutações nas quais a humanidade vai sendo devolvida a si mesma, numa espiral em velocidade.

A relação i e d com o mundo seria a seguinte: cogito e lógica partem da identidade; significante, inconsciente e lapso, da diferença; dialética i/d seria obra de d/d (tendendo à redução digital de tudo)… Blablabla.

Não me pareceram formulações importantes… talvez um novo cartesianismo vestido ao avesso… ou com as roupas de Voltaire…

Claro, a proposta de Wisnik foi apresentar a heterodoxia.

Revoluções, mutações: Francisco de Oliveira, 22 ago. 2007

Em uma palavra: apocalíptico. Para Francisco, o processo de mundialização (termo cunhado por François Chesnais, que prefere a globalização) é um forte processo de hierarquização e não um processo homogeneizador. Para ele o capital fictício – esboçado por Marx no tomo III do Capital e que ouvimos com a alcunha de financeiro, essa espécie de economia homeopática na qual os ativos se diluem de forma milagrosa – encontrou uma forma mágica de sempre adiar sua própria realização, salvando o capital de todas as crises pós-30, permitindo, então, extraordinário crescimento na esteira da técno-ciência.

[China e Índia: uso intensivo de tecnologia roubada + força potencializada e banalizada.]

A ciência teria se tornado, por si, uma força produtiva capaz de tornar banal a produção com força viva. O corpo do trabalhador acabou obsoleto e, com ele, também o Estado e a política para o cidadão comum. Os Estados Nacionais não são autônomos de forma alguma: países são obrigados a sustentar o capital fictício para que sua queda não soterre o capital real. [Bônus do Tesouro norte-americano: “usina para o resto do mundo”.] Segue-se, então, o desmonte da estrutura de classes e, conseqüentemente, da política: trabalho é potencializado, mas também banalizado.

Na competição contra China e Índia, Brasil busca o desastre social: baratear a força de trabalho. Hegemonia às avessas: mesmo com Lula, “direção moral” está nas mãos do capital.