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Diário2Semestre2004

Diário de bordo e dicionário sem verbetes

Lugares e seres

Penso lugares e seres que existem, mas que só podem ser pensados porque não existem. – é minha resposta, um pouco irônica, quando me perguntam o significado de um quadro.

A palavra “pensamento” pode significar o processo mental que ocorre naturalmente, mas também algo que só ocorre quando relacionado à criação. Não é possível criar coisas que já existem, mas ao criá-las fazê-mo-las existir. Da mesma forma, o “pensamento” só é realmente pensamento quando alcança coisas que estão fora do mundo, quando se propõe a fazer as coisas desaparecerem para, com isso, presenciar sua ausência. O que propus foi confundir esse pensar com pintar, mesclá-los num mesmo tempo imediato, capturando o “na ponta da língua” que existe quando a tela está em branco.

É um procedimento. Primeiro encontro seres. [Seres, lugares etc. são apenas nomes para tipos de pensamento, não necessariamente figuras que se assemelham a seres ou a lugares, mas relacionados a existir ou a estar.] À medida que se tornam reconhecíveis, me concentro, então, nas maneiras de fazer com que eles desapareçam, nos truques para mimetizá-los. Meu trompe-l’oeil às avessas é amalgamar seres nas cores, transformando-os em lugares. É uma metamorfose, com diversos estágios e que pode ser interrompida. Ao ponto de interrupção corresponde uma das classificações: seres sem lugar, seres-lugar, lugares-ser e lugares sem ser.

Os nomes dos tipos não são nada além de classificação, não permitem ressuscitar o pensar-pintar, muito menos perscrutar o significado do quadro. Um exemplo é o pensamento que chamo tatogarta… um lugar-ser que resolvi colecionar. Tatogartas é um tipo pensamento especialmente arredio, seus hábitos são difíceis de compreender: sabe-se que são bastante versáteis e que causam impactos econômicos importantes por comerem amarilis [uma flor para amores exagerados]. Elas foram mencionadas em um livro de entomologia, mas não são insetos, apesar do nome.

O pensar-pintar é, portanto, rerum gestarum do qual só sobrou a memória: a pintura mesmo. Um tipo de memória peculiar como Zaíra:

“A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.” (Italo Calvino)

Dois comentários e um poema irônico

No final do semestre passado recebi uma pasta com alguns comentários sobre meu trabalho. Em sua maioria apócrifos, foram retorno essencial que motivou a criação deste “Dicionário sem verbetes”.

Num deles:

“Bom, mas antes de qualquer pensamento vem a visão. E o que eu vejo agora através da minha miopia e de meu pouco conhecimento conceitual na arte, é a topografia de suas experiências. A impressão que tenho é que você constrói ‘mapas’ onde resgata todos aqueles elementos que você mesmo citou em seu texto. Mas ainda sinto que falta a criação de seu ‘dicionário’ visual, para que consiga assim, com pistas verdadeiras e falsas, manipular o espectador pelas trilhas de seu trabalho, deixando a impressão de que foi ele o ‘descobridor’ daqueles caminhos.”

Noutro:

“… embora não me tenha ficado tão claro sua intenção nas obras, após suas palavras ficaram claros seus objetivos. Infelizmente (ou felizmente) construímos trabalhos baseados em uma ‘linguagem’ um tanto ‘sofisticada’, que permite leituras e leituras (um tipo de hipertextualismo imagético), e, às vezes, o resultado dessas leituras podem não ser as almejadas.”

E o poeminha:

Versinho para o Hélio Trabalhos com planos chapados uso de cores vivas Estão prestes a se tornar Obras figurativas

Seres pensavisuplás

Os seres são pensamentos pensados com tinta que deixam memória na tela.

A manipulação da matéria, as ocorrências visuais e a minha presença resultam em um tipo de pensamento cuja característica é estar em ação, em estado de realização. Assim como o pensamento que acontece nos neurônios, esse pensamento dissolve-se na sua realização, transformando-se em memória; mas ao contrário daquele, esse não pré-existe à realização. Trata-se de um pensamento e fazer plástico e experiência visual, tudo ao mesmo tempo, nada antes ou depois e sem ordem nos fatores: “pensavisuplás” que se dissolve no mesmo instante em que existe, deixando de si uma memória diversa àquelas que sobrexistem nas proteínas; uma que não pode ser resgatada nem revertida em pensamento.

É importante destacar que esse “pensavisuplás” não é algo que estava dentro de mim e que depois saiu. É algo de que participo ativamente, mas que está fora de mim; por isso não é um diálogo cuja tela é veículo. E, apesar da tela ser sim uma topografia de experiências, não é das minhas experiências, mas das de ninguém e de todo mundo ao mesmo tempo. A tela na qual ocorreu o “pensavisuplás” guarda uma memória irreversível que provavelmente nunca se converterá em linguagem. O que é visualmente perceptível ali não são signos que remetem a um significado; ou pelo menos não são signos que remetem a significados externos ao quadro. O que está lá é a memória do pensamento em si e por si, pensado com tinta.

Nesse ponto os seres transformam-se em lugares; ou pelo menos em habitantes dos lugares. Eles simplesmente existem e vivem. Por isso não há na tela nem figuração nem abstração. Tomemos como exemplo uma montanha, que não é signo de nada, que é uma existência e só. Num quadro qualquer, uma linha separa dois campos de cor de formato específico e alude à montanha. Noutro quadro, campos de cores, linhas etc. que não nos remetem nem à montanha nem a nada mais. Dessas três existências, meus seres pertencem à primeira. A montanha no mundo real é uma presença e também uma memória das forças tectônicas e dos acontecimentos geológicos. Os seres no quadro são, de maneira similar, presenças e memórias dos acontecimentos gerados pelo “pensavisuplás”.

Quando olhamos a montanha, ela não nos diz nada, mas mesmo assim sentimo-la como se nos dissesse algo. Não é à toa que durante milênios a natureza tenha sido vista como a pintura de Deus… Quando olhamos a montanha, impomos a ela nossa cultura, nós a fazemos falar, nós a lemos como se fosse um signo que, primordialmente, não é. A riqueza dos seres, acredito, é justamente poderem ser culturalizados, da mesma forma como foi a montanha.

O surgimento do dicionário

Resolvi pesquisar os diversos “pensavisuplás” de uma maneira mais direta e imediata. Povoei meu ateliê de rabiscos, rascunhos, caderninhos e em vez de dispensá-los como rascunho, resolvi tratá-los como seres. Fiz o mesmo com fotografias ruins e papéis dos mais diversos tipos. Tentei proceder com eles da mesma forma; mas percebi que havia muita diferença entre criá-los com tinta e deslocá-los de um ponto a outro. Havia muito mais responsabilidade nessa nova forma de agir…

Os primeiros resultados eram muito gráficos: o branco do papel respirava, havia um certo compromisso com a ordem e um certo pensamento prévio à ação; a cola ocasionava uma pausa excessiva nos momentos em que não deveria ocorrer; os lápis e canetas, instrumentos mais diretos, estavam criando linhas e não padrões, texturas e manchas. Decidi então “pintar” com aqueles seres prontos; fita adesiva daria menos margem às pausas e, rasgadas, se transformava também em seres; instrumentos de desenhos seriam utilizados como se fossem pincéis; papéis transparentes, veladuras etc. Rapidamente tudo o que havia à mão se transformou em instrumento e componente direto do trabalho: grafite, canetas hidrocor, lápis de cor, tinta guache, aquarela, nanquim… E o que resultou eram pinturas, não desenhos, não colagens: pinturas!

Num exercício da disciplina “Arte gráfica I”, deveria fotografar “coisas” que denotassem letras, dentro de um universo específico. Sendo eu um egresso da pintura, resolvi pintar com as fotografias e com os seres acumulados no ateliê. Justificando, escrevi:

“o bom de morar em casa é a distinção de dois foras: o ‘lá’ e o ‘ali fora’. Ali fora pode ir descalço e aterrar, e ter boas sinapses. Tem sol e aquela porção particular de céu cujo muro perpendicular é a medida. Os outros ângulos servem para saber se vai ou não chover… visar 360o procurando aquele chumbo! Mas sem necessidade de precauções, já que tirar a roupa do varal com dois minutos de folga é bem mais engraçado.

o importante mesmo de ter um ali fora é que a vida fica bem horizontal, sem empilhamentos – de gente – pois do resto é o que mais tem. Amontoar faz parte da natureza das coisas que vivem ali. O quebrado, o gasto, o enferrujado ficam mais seguros em pilhas que ganham mais coesão a cada chuva. Coisas que sabem muito bem a diferença entre ali e lá…

ali me pareceu um bom lugar para procurar letras. Hum… costumes congregativos… Se tem letra perdida aqui em casa, é ali que foi parar, pensei. Tiro e queda! Um monte delas. Mas houve um problema: seria politicamente incorreto capturá-las e isolá-las. A solução seria compô-las, decidi.

ainda bem que ali também havia minha pilha de papéis usados. Dito e feito.”

As “26 preletras para composições [Esdrúxulas]” se tornaram, então, os “capítulos” alfabéticos do dicionário, acatando a sugestão de um dos comentários.