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MAPCríticaContexto

Workshop Crítica e Contexto, MAP, 14 a 18 de março, sob orientação de David Armengol e David G. Torres.

A revista

2008-04-08 - Saiu o número da A-Desk com os textos resultantes do workshop.

Comentário ao texto ¿Qué crítica? de Martí Peran

Como, por excesso de purismo, faria a crítica da crítica de ¿Qué crítica? de Martí Peran, que é pertinente, não feder reacionarismo:

1) Tolerância, Pluralismo e Relativismo são conceitos positivos que se encontram negativizados não pela intolerância, unilateralismo ou determinismo, mas pelo seu uso rotineiro em retóricas vazias ou mesmo antagônicas: são significantes esvaziados de significado, transformados em fetiche. Acrescente-se à lista, dentre outras, Democracia – palavra que sempre buscamos adjetivar no momento da Crítica, justamente porque não queremos perder e sim resgatar seu significado fundamental.

2) a) “repudiar a apologia cega da tolerância” – como não cabem adjetivos em “tolerância”, adjetiva-se “apologia”. Mas eis que nada serve: no Oriente Médio, por exemplo, “tolerância cega” é tão desejável quanto “apologia cega da tolerância”. A questão não é Tolerância.

b) “fundamentalismo” não é necessariamente uma palavra negativa: voltar-se para o fundamental – para o essencial, para o mínimo – é um dos pontos de partida da Tolerância: o que é verdadeiramente fundamental em todas as religiões, por exemplo, é o próximo. O que é fundamental na arte?

c) “puro ceticismo” é fundamentalismo no mau sentido. De certa forma, o que está sendo chamado “tolerância”, “pluralismo” e “relativismo” é ceticismo: é a aceitação da impossibilidade de conhecer, cuja conseqüência é a pura retórica.

3) Contra a “consciência e resignação” ante a inevitabilidade das contradições, gostaria de opor a dialética benjaminiana da não síntese, da não conciliação, da inquietude: é aí que reside a Crítica, o “por em crise”. Resistir é sempre uma opção – mesmo que dela resulte o fracasso.

4) A arte como forma de conhecer não exige aval de outros conhecimentos: a “dificuldade epistemológica” é ótima contra o sentido platônico de episteme; e é Episteme no sentido foucaultiano, de paradigma em um estrato. Vale perguntar: por que ciência e poesia não são igualmente saber?

5) O nome do “filtro” que “sossega nosso consumo” não é Crítica.

Eis o que devemos criticar: o esvaziamento de todos aqueles conceitos pelo mau uso; o nome “crítica” em algo que não põe em crise; a aceitação tácita; o sentimento de inevitabilidade e, sobretudo, o ceticismo em relação à possibilidade de conhecer.

Por que defender simples palavras? Porque elas são vitórias da liberdade (outra palavra) crítica contra séculos de sorbonismo. Se são transformadas em fetiche por outra espécie de sorbonismo, que se destrua o fetiche, não as palavras.

Minha carta de intenções

Minha pesquisa de mestrado é sobre o que chamo “cultura de catálogos”, que seria uma espécie de cultura substitutiva de acesso à arte em periferias artísticas como Belo Horizonte. O que busco é a plausibilidade de se criar “pinturas para catálogos”, incluindo aí, claro, a crítica em catálogo.

Não sei se vem ao caso a teoria por trás da pesquisa: discuto os catálogos segundo a perspectiva do arquivo, trabalhando-os como uma memória da exposição que, impressa, aponta para o recalque. “Impressão” assume vários sentidos: marca, vestígio, reprodução e também o resultado de uma ação exterior, bem como – e talvez principalmente – o tipo de sensação vaga sobre algo.

A experiência recente do MAP tem papel fundamental na pesquisa. A forma como a curadoria do Museu, desde 2001, enfrentou as peculiaridades do espaço e as dificuldades de exposição do acervo permanente – apostando em site-specific e em um modelo que Adriano Pedrosa chamou de “caixa de jóias” no lugar de “cubo branco” – resolveu o problema do MAP como espaço de arte, mas não o seu problema como museu-morada-de-arte. Os 50 anos do Museu colocam novamente em pauta o acervo e a necessidade de torná-lo conhecido. O recém lançado catálogo da exposição Neovanguardas, talvez o melhor já lançado pelo Museu, aponta uma possível estratégia para isso: a impressão do acervo como estratégia de divulgação.

Nesse sentido, minha intenção no workshop é iniciar um trabalho crítico cujo contexto é o arquivo – o conjunto das impressões e a máquina de impressão – do Museu como forma de lidar com suas impossibilidades – periferia, cassino etc.