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MeuProcedimento2006

O que chamamos pensamento – pensei nisso, naquilo – não é pensar. Só se pensa fazendo existir coisas que estão fora do mundo. É um partido: ver o mundo pela ausência e fazer sentir a falta. Definem assim certa literatura. O que esperar de um procedimento semelhante aplicado à pintura, levando em consideração o frágil estatuto dela na arte contemporânea?

Essa indagação está subjacente em todos os trabalhos apresentados, inclusive naqueles que se expandem como arte digital ou mesmo desenho. Uma ressalva é necessária: há mais trabalhos em outras técnicas que em pintura, mas mesmo assim este portfólio continua sendo de um pintor; e, principalmente, de um que se incomoda com a obsolescência do espaço que escolheu trabalhar. Incômodo não quer dizer abandono, justamente o contrário. Na iminência da morte, o que se vê aqui é raiva e barganha, com alguns momentos de resignação.

Dai a organização em quatro blocos de proposição / predisposição:

O primeiro agrupa as tentativas de criar pinturas que são memória de um pensamento. São, entretanto, um tipo diferente de memória porque, apesar de presente e intacta, permanece irrecuperável. Algo como Zaíra, a cidade de Ítalo Calvino que não conta o seu passado. O que está no quadro, portanto, não pode ser mais convertido em linguagem, visando uma mudez que pode, a um só tempo, revelar a pintura e o mundo.

Mas as coisas que não existem – às quais denominei seres e lugares – careciam de nomes que as limitassem a um contexto não abstrato. Coube às palavras afirmar que o que estava ali era o mundo negado, não apenas uma composição formal. Tais seres – ditos, narrados – terminam então personagens, marcando uma aproximação entre os espaços pictórico e literário.

Aproximação sem, entretanto, interseção. Há relação entre palavra e imagem, mas não é possível desenvolver dali um silogismo. Do que resulta falta, hiato que poderia deixar entrar justamente (e novamente) a pintura e o mundo. Pura barganha diante do inevitável, assim se define o segundo bloco.

O inevitável é que personagens impõem enrredos, impõem comunicação. Pior, estes insistiram em ser divertidos! A irritação vem da crença na máxima de que divertir-se é concordar…

Destaca-se, então a tatogarta, de origem puramente literária: um pastiche tipográfico em um livro de entomologia. Como inseto, adquiriu hábitos como comer amarilis, problema econômico para amores exagerados. Como coleção, ganhou a forma arquetípica da pintura moderna, o quadrado preto. Como pesquisa, suscitou a hipótese de que era inclassificável. Transformou-se em moeda franca para, numa série de citações sucessivas, de Malevich a McCollum, sem falar em Duchamp, acabar por se apropriar de toda a arte (e de todo o mundo). Para então ser, finalmente, absorvida como “tatococa” em um comercial da Coca-Cola Light.

No momento da total integração, não soçobra, entretanto, o apocalíptico. Um bom mote para o quarto bloco, testes / teses. Nos dois experimentos apresentados há o princípio da violação, uma contra a linguagem digital, outra contra a tradição do livro.