Diário de Bordo Mudanças Recentes dedalu.art.brTagsRSS RSS

Diário

2010-11-01 Algo inédito houve hoje

Nem mais nem menos a falar: houve algo inédito hoje! Parabéns ao Brasil!

Adicionar Comentário

2010-10-17 O mais atual dos poemas

Eduardo Alves da Costa (e não Maiakovski, nem Brecht) em 1964:

“Na primeira noite eles se aproximam / roubam uma flor / do nosso jardim. / E não dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem: / pisam as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que um dia / o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa, / rouba-nos a luz, e, / conhecendo o nosso medo / arranca-nos a voz da garganta. / E já não dizemos nada.”

Este poema nunca pareceu tão atual…

Adicionar Comentário

2010-08-18 Isso só pode ser arte

Só pode ser arte, mas não é.
Só pode ser arte, mas não é.

Meu amigo blogueiro Fofão enviou o link Candidato posta vídeos 'picantes' no YouTube para fazer propaganda eleitoral, com o lacônico comentário: “Começou a criatividade… eu mereço…”

Com bom humor, fui ver os tais vídeos. O primeiro, Loira Sensual em Noite Secreta no Motel, chamou minha atenção pelo título planejado segundo os princípios SEO (Search Engine Optimization), de forma a coincidir com uma das buscas mais comuns no Google – “loira” e “motel”. Vi o vídeo e, diversamente dos demais espectadores que deixaram comentários irados, continuei achando graça, pois havia algo estranho, e não era a referência ao adultério – “Oi querido. Não, eu não estou sozinha. Estou com Jeferson Camillo!”

Fui ver o segundo, Negro e Loiro em Noite Secreta no Motel. O mesmo título com SEO, a mesma frase é dita, mas dessa vez, um casal homossexual. Daí não consegui mais parar de ver: Garota Revela seu Segredo no Motel – cujo segredo é óbvio desde o primeiro segundo; Loiro e Negro em Noite Secreta no Motel – isso mesmo, uma simples inversão do segundo vídeo; e por aí foi até Casal é Surpreendido em Banheira de Motel – que ganhou o seguinte comentário:

Se “algo novo” for um negão dividindo a banheira comigo num motel, morrerei votando nulo (rockmanbn).

Imediatamente pensei em Jeff Koons e numa possível apropriação da linguagem dele pelo movimento GLBTTTS, daí meu comentário:

Cara, isso só pode ser arte! É demais, muito legal como arte! Em outro contexto, talvez (aspas em cada palavra:), viria à baila o direito das minorias à auto-representação estética e política, o homoerotismo kitch e a estética GLBTTTS nas novas mídias e redes, e a forma guerrilheira/resistente como aborda o processo eleitoral e suas limitações intrínsecas em um país ainda marcado pelo preconceito de gênero etc.
Mas claro que não é nada disso, mas se fosse, o tal Camillo-artista seria fera mesmo; inclusive ao manipular o jornalista de forma que saísse no leading da matéria o jocoso “É um material provocativo desenvolvido com base em estudos sobre psicologia das massas”; que seria a etiqueta irônica característica da arte-política atual.

Se fosse arte, mereceria ir à Bienal! Trataria-se de hábil utilização de uma série de poéticas contemporâneas: 1º) um candidato fictício e uma campanha fictícia; 2º) vídeos que mimetizam perfeitamente um dos mais rentáveis braços da indústria cultural – com direito até a making of – , o pornográfico; 3º) um roteiro recursivo que reutiliza absurda, incansável e habilmente o mesmo cenário, o mesmo enredo, os mesmos personagens, a mesma música…

É uma pena não ser arte…

Adicionar Comentário

2010-08-04

“Os poetas têm que se armar” – disse o poeta.

“Se armar” contra a crítica, seria o caso… Mas ele não viu o que eu vi imediatamente depois que ouvi essa frase. Eu estava assistindo televisão. E têm mesmo que se armar, penso eu: “Cidades e soluções”, Rede Globo (que apoia Serra, mas antes a mulher verde, Marina Silva, para ver se vem um 2º turno): um pimentão com uma pintinha vai para o lixo orgânico, que fica armazenado nos fundos do ‘Zona Sul’, a 5 grau centígrados, para não dar cheiro ruim, que os clientes sentiriam, mas cujo gasto em energia tem compensação, pois virá uma destinação nobre: adubo!

Vão a merda! E os empregados carregando aquele pimentão com uma pintinha… sem dúvida gostariam de ter aquele fenômeno agricultural em sua mesa! Que coisa é essa que a classe idiotamente rica e “ecológica” dispensa? E os empregados que não têm grana para comprar no ‘Zona Sul’ carregando o tal pimentão com pintinha para uma geladeira e depois para o adubo! Nem xepa, nem beira: num país de fome, isso é ecologia? Tudo muito verde, com muita responsabilidade ecológica…

Sim, os poetas têm que se armar de indignação e parar de aparecer na Rede Globo.

Adicionar Comentário

2009-12-06 Campanha cancele a Folha e o UOL

Eu e muitos outros apelamos com a Folha. Já havia cancelado a assinatura no episódio da “Ditabranda” e só compro esse jornal obrigado. Mas agora com o caso do César Benjamin, resolvi fazer campanha contra.

Cancele Folha / UOL: mantenha sua mente limpa (censurado!) Cancele Folha / UOL: perigo (censurado!)

A Folha está ameaçando os que publicam esses banners acima de processo por uso indevido dos logotipos. Foda-se. Segui a proposta do Mello: “Baixe para seu computador e suba para seu blog ou rede social.” e aí estão as imagens. Quero ver a Folha me processar!

Há outras imagens muito legais abaixo, mas acho que essas primeiras, justamente por terem sido censuradas, são as mais importantes.

Cancele Folha / UOL: apoiou a tortura! Cancele Folha / UOL: censura blogs! Cancele Folha / UOL: falsifica documentos! Cancele Folha / UOL: apoiou a Ditadura!

Adicionar Comentário

2009-06-16 Voltar a falar em flores

Pétalas aos policiais na USP, 9 de junho de 2009
Pétalas aos policiais na USP, 9 de junho de 2009

Já faz uma semana e pouco foi dito, passado o ápice espetacular, sobre a repressão na USP, último dia 9… Essa bela fotografia (infelizmente não sei o nome do fotógrafo) me fez pensar nisso: é hora de voltar a falar em flores!

Adicionar Comentário

2009-06-09 Porrada da polícia tem hora marcada

Polícia na rua com hora marcada graças aos porcos fascistas da TV.
Polícia na rua com hora marcada graças aos porcos fascistas da TV.

Estou vendo horrorizado mais um caso de repressão brutal aos movimentos sociais. Agora é na USP. Resolvi percorrer os canais e encontrei dois apresentadores de TV torcendo pela porrada. Primeiro o tal Ratinho dizendo que os estudantes estão ali apanhando porque gostam de farrear. Depois o tal Datena repetindo “O pau vai comer, o pau vai comer!!!”, apoiando incondicionalmente a ação policial, mesmo sem saber o que estava ocorrendo. Enquanto ele dizia que os manifestantes atacaram a polícia, foi ao ar uma cena desses mesmos manifestantes jogando FLORES no batalhão de choque!!! Depois entrou em cena, ao vivo, o chefe das operações dizendo que também estava ferido, sem entretanto saber dizer bem onde havia sido ferido… Já estava na cara que houve abuso de força, com uso de balas de borracha e até presença de força letal, mas o tom dos apresentadores não mudou…

Aí fica mole! A polícia agora tem hora marcada para dar porrada: 17:30h!!! Esperam os programas sensacionalistas e sentam o pau! Sabem que serão defendidos pelos dois pulhas safados Datena e Ratinho. Não tenham dúvida: o fim da democracia no Brasil começará às 17:30h e será aplaudido ao vivo.

Adicionar Comentário

2009-04-03

Em Qui, 2009-04-02 às 00:56 -0300, Otto Ramos escreveu:

> E ainda tem gente dizendo que comunismo é coisa de gente doida!!
> 
> ---------- Forwarded message ----------
> Subject: Fwd: O cálculo da crise... Interessante...

O cálculo da crise, puramente matemático, está correto, mas não é esse o maior absurdo. Dentro dos marcos do capitalismo, o que aconteceria se entregássemos U$ 104 milhões a cada pessoa do mundo? É esse o absurdo da coisa! Esses U$ 104 milhões passariam imediatamente a nada valer; haveria uma super-hiperinflação instantânea pois – e essa poderia ser uma frase de Marx: – dinheiro não cruza com dinheiro para parir dinheiro.

Até poucos meses atrás ainda se falava da infinita capacidade de regeneração do capital diante de seu paradoxo mais visível hoje, que é o capital especulativo. Um bom naco dos teóricos acreditavam até em uma necessidade cíclica de crise estrutural – isso mesmo, ou necessidade crise estrutural cíclica, o importante é a necessidade – para manter a máquina funcionando. Nesse sentido, a criação de “bolhas” e seu posterior “estouro” não deveria ser visto apenas como um sintoma da contradição essencial entre produção (trabalho, valor-de-uso, valor sem mais-valia etc.) e especulação. Para eles, tratava-se de ciclo vital mesmo, como se o capitalismo não pudesse viver sem suas crises, como se ele se alimentasse delas.

Sempre achei isso um fatalismo acomodador, mas nunca consegui organizar uma contraposição baseada em fatos históricos. Em termos teóricos, bastava ser teleológico, afirmar que, um dia… um dia… vai!

Mas em termos históricos, que são os termos do marxista, parecia haver uma coerência inelutável: a cada crise o capitalismo encontrava sua saída agudizando a exploração seja do trabalhador, seja imperialista. As crises, então, acabavam sendo uma maneira de retomar um capitalismo, digamos, “de raiz” – higienizado das impurezas social-democratas, lavadinho, brilhante. Entre uma crise e outra, a sujeira voltaria: os sindicatos atuariam, a sociedade civil faria pressão etc.

Antes de cada crise, então, observaríamos um período de acomodação social graças a pequenas melhorias, e de acomodação mundial pelo relaxamento da pressão imperialista. Entre as crises o capitalismo encontraria um patamar sustentável de exploração (“sustentável”, no sentido ecológico do termo).

O ciclo seria haver períodos de desequilíbrio muito curtos, precedidos e sucedidos por lentas recuperações não só econômicas, mas também político-sociais. Essas recuperações evitariam insurreições e rupturas revolucionárias, enquanto os períodos de desequilíbrio serviriam justamente para impedir que a continuidade dos ganhos político-sociais desembocasse em social-democracia de fato.

Esse fatalismo acomodador estava muito bem ancorado no próprio materialismo histórico. Ele entrava numa brecha (falha?) do método: na história, nem toda dialética encontra uma síntese conciliatória, com aniquilação dos termos contraditórios. Muitas vezes a síntese histórica mantém os mesmos elementos, só que com outra forma, com outra dinâmica.

O capitalismo das últimas décadas teria conseguido abrir uma dessas brechas? O neoliberalismo, que nunca foi liberal, mas cíclico, como descrevi, parece ter sido uma dessas brechas. E agora dizem que acabou. Mas qual será a resposta dos teóricos burgueses (eles existem!) que leram Marx e prestaram atenção nas aulas sobre estruturalismo e pós-estruturalismo? A brecha realmente se fechou?

Fiz todo esse arrazoado (essa regurgitação teórica) pensando na recente recuperação de Marx e na falsa “Frase de 1867”. Ficaria felicíssimo se Marx viesse a ser finalmente recuperado como marco científico e político, mas tenho muita preocupação com uma espécie de recuperação ipsis litteris, antidialética e sobretudo anistórica.

A dimensão da crise, essas cifras assustadoras e sua duração – aparentemente longa – poderia até vir a ser o fato histórico que sempre procurei para argumentar contra aquele fatalismo acomodador. Mas será mesmo? Estaríamos às portas de uma ruptura estrutural? O sistema teleológico – que é sobretudo “quanto pior melhor, agora posso ficar aqui de pijamas” (eu estou literalmente vestindo um) – voltaria a funcionar, agora com uma base material e não puramente teórica?

Continuo comunista, claro. Mas minha resposta agora é “devagar com o andor”. O PCdoB começou uma campanha de filiação que eu acho correta e indispensável, afinal, comunismo não é mais coisa de gente doida – para mim nunca foi, pois sempre fui muito equilibrado, hehehe. Mas tenho um conselho: é besteira virar comunista agora só porque acha que essa crise é de ruptura. Nem o PCdoB acha isso, senão não estaria fazendo campanha de filiação falando sobre queda dos juros.

Os velhinhos sempre me disseram que há três motivos para optar pelo comunismo: estômago, coração e cérebro. Quem é comunista por causa do estômago deve ser formado para que o seja também pelo coração e pelo cérebro. Quem é graças ao coração, deve vir a ser também pelo cérebro. E quem é pelo cérebro deve amaciar o coração. Um comunista, então, tem coração e cérebro comunistas. O estômago, claro, é uma fatalidade e ninguém precisa passar fome para ser comunista; afinal, o que queremos é distribuir a riqueza (fazendo um cálculo um pouco mais elaborado) e não a pobreza. Mas sem o cérebro e o coração, logo que o estômago se enche, vai-se o comunismo – e isso não pode acontecer: não há coisa pior que um ex-comunista!

Pensando no que escrevi sobre o PT, sobre os ex-PT, sobre os que se decepcionaram, achei que deveria concluir com o seguinte: o estômago e o coração podem até virar comunistas por causa da crise, mas o cérebro tem que acompanhar. O novo comunista deve investir sobretudo em sua formação para ser um militante efetivo, com voz no partido e ação na sociedade (e não o contrário, como ocorreu no PT).

Filiem-se! Não importa a qual: PCdoB, PCB, PCO, PCx. O importante é ser comunista de coração e cérebro.

Adicionar Comentário

2009-03-25

Sobre a decepção dos ex-PT com o Governo Lula, acho que o Dimitri traduziu bem o que sinto em duas partes:

Em Qua, 2009-03-25 às 11:20 -0300, Dimitri Fazito escreveu:

> Mas o fato que me incomoda eh esse negocio de indignacao seletiva, de
> analise seletiva que todos andam fazendo,

e

> Mas isso nao me estressa - a unica coisa que me estressa mesmo, eh
> correr o risco - qualquer risco! - de ter mais uma vez os emplumados
> (e principalmente os emplumados paulistas) no poder por mais oito
> anos. Isso me deixa muito estressado mesmo, cara!

Disso volto a um prego que sempre bati: a diferença entre tática e estratégia. Quando o Lula foi finalmente eleito e estávamos todos bêbados na Avenida, repeti – como convêm a mim alcoolizado – inúmeras vezes que o plano de governo do PT era transformar o Brasil em uma potência mundial. Pareceu para muitos excesso de pessimismo de minha parte, mas na verdade era otimismo: pensava que a primeira reforma seria a agrária, seguindo-se então o plano desenvolvimentista de cunho populista. Delfim Neto redivivo: “crescer o bolo”. Eu pensava na tática: só o Lula poderia fazer isso e era só isso o que ele poderia fazer, ao menos inicialmente.

O PT nunca foi, em termos estratégicos, um partido socialista e talvez nem mesmo de esquerda. Na verdade, ele nunca foi sequer um partido antes de conquistar o poder executivo. Essas questões são importantes: se fosse um partido, seria socialista pois a maioria de seus militantes o era. Mas era necessário que fosse frente. Ele nunca poderia ser partido socialista, até porque não serviria à necessidade tática desses mesmos militantes socialistas.

O problema começa quando ele se torna um partido, algo essencial com uma Presidência da República em mãos. Houve um erro aí. E não foi da direção do PT, mas de seus próprios militantes socialistas que deixaram de lado o pensamento diferencial dialético entre tática e estratégia. Justamente no momento de luta interna para definição de uma estratégia, tiveram uma síncope! Tudo ocorreu como se fossem anarquistas, socialistas utópicos etc. Pareceu a eles que a necessidade tática havia sido conquistada? Acho que aí faltou estudo.

Entraram então em modo automático: o moralismo carola do discurso antiaparelho e a criação sistemática de manchetes sobre corrupção. Mas o pior foi deixar de lado o sindicalismo engajado e optar pelo “de resultados”. A militância perdeu duplamente a mira, ficou estrábica: não se governa sem aparelho de governo e não se tem partido sem silêncio externo. E ao mesmo tempo fez trégua ao capital, como se fosse trégua ao governo. Onde devia lutar internamente, o fez externamente e vice-versa. Aí faltou sobretudo renovação de lideranças – o que nós costumávamos chamar “formação de quadros”. As lideranças antigas seriam, claro, cooptadas no aparelho de governo. Deveria haver novas na fila…

Tudo isso, entretanto, o Dimitri traduziu melhor que eu: é caso de psicólogo. E eu o sei bem: ser ex- é realmente difícil: o sentimento de culpa parece intransponível. Mas a questão é que não há culpa.

No xadrez, cada movimento deve ser justificado por um plano estratégico. Quando não cumprimos essa regra e perdemos, tendemos a considerar este ou aquele movimento como a origem do erro que nos custou a partida. E também o contrário acontece: consideramos um lance puramente tático como genial se ganhamos, mas quando analisamos esse mesmo lance sem paixão, percebemos que poderia ter destruído nosso jogo se o adversário fosse suficientemente hábil.

Se a militância do PT tivesse estudado xadrez, talvez o quadro fosse outro.

Adicionar Comentário